Entre pernas, passos e tropeços a gente vai deixando algumas
coisas pelo caminho e encontrando outras... O que não pode é se subtrair. O
processo tem que ser de acréscimo, sempre. Nada é tão definitivo assim e a
gente nunca É, a gente ESTÁ...
Sempre digo que quem se aprofunda nas coisas, quem mergulha, sabe exatamente o
gosto que tem o alimento cru porque não se contenta com o que está pronto,
posto sobre a mesa. A gente vai experimentando aqui e acolá, vai sentindo o
ritmo, o tempo, tendo cuidado com algumas coisas e desrespeitando as placas de
aviso de perigo de outras. A gente cai, levanta, chora, celebra. A gente vive.
A gente se conhece através das reações dos outros a nós mesmos. A gente se
trabalha ou estagna, regride ou evolui. A escolha é sempre nossa. Tal como as
consequências. A gente resolve se entregar quando é tarde pra descobrir que pra
respeitar o nosso próprio tempo, é preciso lembrar e ter o mesmo respeito pelo
tempo do outro. E que muitas vezes, pra ser honesto, é preciso se correr um
risco o qual não queremos. Mas a gente corre. A gente aprende que...
A vida real, muitas vezes, nos é apresentada pulsante, em carne viva, sem
maquiagem. Com as veias todas à mostra. O que pode ser desagradável de se ver
ou emocionante como um parto...
O que posso dizer é que existem na vida pessoas sedutoras e seduzíveis por quem
nos apaixonaremos "definitivamente" todos os dias e que amaremos
"para sempre" hoje!
Sei que os grandes relacionamentos que tive foram os que me renderam as
melhores metáforas. Que me despertaram uma vontade constante de ser uma pessoa
cada vez melhor e mais inteira. Que me deram colo e não conselho e beijo na
boca quando o silêncio ainda era a melhor resposta. Algumas dessas pessoas se
foram antes que eu pudesse lhes contar uma história bonita e eu chorei feito
menina. Outras ficaram até descobrir que uma caixa de Kiwis era o melhor
presente que eu poderia ganhar no meio de uma tarde triste... Outras, ainda, me
cobraram respostas demais e eu só sabia que nunca aprendi a andar de perna de
pau porque tenho medo de altura (o que por um lado pode ser também resposta
para várias outras coisas). Mas todas essas pessoas me desenvolveram e isso
ficou comigo; são minhas porque faziam parte do meu potencial amoroso e elas
vieram só pra me conduzir ao melhoramento do meu amor. Hoje o meu grau de
exigência aumentou muito porque aprendi que dar amor não é a mesma coisa que
dar carência. Por isso fico sozinha pelo tempo que for necessário para ter
novamente essa sensação de "encontro". Abandonei um monte de
certezas, recuso sem pudor algumas regras e desrespeito várias vezes as placas
de aviso de perigo. Me divirto muito ou sofro, mas tenho cada vez mais
faisquinhas nos olhos por viver as coisas em sua totalidade, sem recusar
experiências e aproveitando diversas possibilidades.
Agora, tem um lado muito romântico meu que diz que a "tal pessoa"
virá e enroscará uma margaridinha nos meus cabelos... Fazendo pousar no meu
rosto o sorriso de um beija-flor e plagiará Neruda sussurrando ao pé do ouvido:
"Quero fazer com você, o que a Primavera fez com as cerejeiras..."
É isso. Pule no tal abismo quando seu coração bater tão forte que só te restará
pular. Vc só vai saber se fez a coisa certa, fazendo-a. Só se pode falar do que
se conhece e não há como conhecer pela superfície, é preciso tocar
verdadeiramente nas coisas e então, se deixar ser tocado por elas. O importante
é lembrar que a escolha é sempre nossa e que no momento em que tudo nos foge ao
controle é porque chegamos na parte mais importante do aprendizado.
Que o medo não tenha tanto poder sobre nós... E que não fiquemos condicionados
por experiências anteriores - há sempre uma oportunidade de surpresa, mas
teremos que estar abertos a isso. Nada é tão definitivo.
Marla de Queiroz
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