Quem escreve constrói um castelo;
E quem lê passa a Habitá-lo...

23 de junho de 2012

Metafórico




Tudo acabando aos pouquinhos, se desgastando, perdendo a cor.
Dos dias que eram felicidade e determinação agora brotam raízes de insegurança e medo.
Definho-me.
As ervas daninhas sufocam pouco a pouco as tulipas amarelas do meu jardim.

Já contei que eu adoro tulipas e que dá um trabalho danado cultivá-las?

Então. Agora sinto inútil o meu trabalho e fico observando de longe e com dor forte no peito todas elas partindo.
E vão sofrendo, espatifadas, aleijadas igualzinho aquela flor da Tiamelinha do conto do Caio.
A gente re-al-men-te se entrega nas menores coisas, nas menores dores, nos menores detalhes.
Sorrio triste constatando que não há nada que eu possa fazer a não ser continuar tentando - vivendo - .
Talvez, outro dia eu acorde bem cedo com aquela vontade louca de plantar outro jardim.
Depois do inverno é claro, que é pras plantas não sofrerem com o frio.
Mas por enquanto, ninguém entende essa minha falta de ação, aqui sentada só esperando as coisas acontecerem.
E me olham com aquelas caras de espanto, os olhos arregalados e na voz um tom sutil de indignação.
Ah! menina, o que foi que foi que aconteceu com você? O que foi que fizeram com você?
Tenho vontade de responder:  Mas eu também não sei, eu também não entendo.
Roubaram a minha alegria. Pegaram as minhas certezas e jogaram ao vento.
Privaram-me do sol quente e me deixaram na sombra fria. Longe do cuidado que eu desejava, longe daquele porto já tão conhecido e venerado.
Mas ninguém  ousaria saber do que eu falo, ninguém seria capaz de compreender. E com a voz embargada e os olhos tempestivos, pondero.
Evito as deduções erradas e me deixo soar infantil e melodramática.

Não foi nada.

Foi só a minha tulipa amarela que  - morreu.

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