Quem escreve constrói um castelo;
E quem lê passa a Habitá-lo...

3 de agosto de 2012

Sobre o ciúme


Porque eu tenho pesadelos que parecem tão reais até quando você me abraça.
E eu acordo triste, e brigo de verdade e passo o dia grave e dolorida como quando a gente leva um tombo no piso liso... Que é só o passado.

É como se eu sentisse um ciúme horroroso do meu livro predileto comprado em sebo, a dedicatória apaixonada que não é a minha, os resquícios do manuseio de outras mãos. Alguém corrompeu o trecho que eu mais gostava quando grifou à caneta algo que não pude apagar com borracha e que era tão secretamente meu. Desenhou corações onde só havia minha dor e eu discordei da interpretação alheia. E achei aquilo tudo de uma crueldade atroz. Mas permaneci com o livro no colo, cheia de um afeto confuso por ele:

afeto pelo que era, angústia por já ter sido de outro alguém, e aquela sensação (imbecil) de falta de exclusividade.

Ciúmes é medo disfarçado em amor.
Eu que sempre achei que tudo é e está para o mundo.

Perdoa o meu senso de auto-importância, já que não consigo perdoar o meu egoísmo.

Eu sei que em alguns presentes, no embrulho, laços do passado são aproveitados. Eu só queria que eles não fossem tão vermelhos: desses que doem nos olhos e no coração.



Marla de Queiroz

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