Porque eu tenho pesadelos que parecem tão reais até quando
você me abraça.
E eu acordo triste, e brigo de verdade e passo o dia grave e
dolorida como quando a gente leva um tombo no piso liso... Que é só o passado.
É como se eu sentisse um ciúme horroroso do meu livro
predileto comprado em sebo, a dedicatória apaixonada que não é a minha, os
resquícios do manuseio de outras mãos. Alguém corrompeu o trecho que eu mais
gostava quando grifou à caneta algo que não pude apagar com borracha e que era
tão secretamente meu. Desenhou corações onde só havia minha dor e eu discordei
da interpretação alheia. E achei aquilo tudo de uma crueldade atroz. Mas
permaneci com o livro no colo, cheia de um afeto confuso por ele:
afeto pelo que era,
angústia por já ter sido de outro alguém, e aquela sensação (imbecil) de falta de exclusividade.
| Ciúmes é medo disfarçado em amor. |
Eu que sempre achei que tudo é e está para o mundo.
Perdoa o meu senso de auto-importância, já que não consigo
perdoar o meu egoísmo.
Eu sei que em alguns presentes, no embrulho, laços do passado
são aproveitados. Eu só queria que eles não fossem tão vermelhos: desses que
doem nos olhos e no coração.
Marla de Queiroz
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