Te olho dormindo de lado. É engraçado como não importa se
você está em um colchão apertadinho ou em uma cama de casal, você só ocupa meia
cama. Sempre encontra um jeito de se deitar de um modo que eu consiga me
encaixar perfeitamente ao seu lado. Um convite tentador a uma conchinha já
pré-moldada. Aproximo-me do calor que você exala para sentir sua
respiração quente em minha nuca. Sua pele morna, quase molhada é uma provocação
para eu mandar o resto do mundo a merda e passar o dia encolhida entre seus
braços. O despertador virou meu mais íntimo inimigo.
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Enquanto velo teu sono imaginando por onde você anda, me
pergunto: como foi mesmo que você acabou entrando em minha vida? Foi primeiro
uma carona? Um drink? Um convite, um beijo, uma foda. Uma mensagem, um sorriso.
Aí você esqueceu a blusa em
casa. Aí você resolveu deixar a blusa em casa. Deixou também
uma camisa. E quando a sua escova de dente encontrou espaço no armário do meu
banheiro, aí já estava feito. Veio junto barbeador, chinelo, pijama, livro de
cabeceira, carregador de celular, trava da moto, chave extra de casa, bomba
para asma, lentes de contato, desodorante e shampoo anti-caspa. Conquistou uma
gaveta para chamar de sua no meu criado-mudo. Era a sua constante presença em
meus pensamentos, em meu dia-a-dia, em minha vida, tomando forma física.
E sabe que, às vezes, a gente responde com um instinto
brusco quase natural ao estímulo dessa presença estranha em nosso habitat.
Reclama da toalha em cima da cama como se fosse o fim do mundo, da tampa da
privada levantada como se fosse um desaforo, das cuecas penduradas no armário
como se representassem um ultraje. O que não percebemos é que a implicância com
a presença pode ser o medo da ausência. Porque eu estava feliz e tranquila
antes de você chegar. Porque eu nunca precisei de nada e nem de ninguém para
levar a minha vidinha em
paz. Porque eu já não consigo mais imaginar você fora de mim.
É praticamente uma defesa natural contra traumas passados.
Quem nunca viu alguém que se ama partir, dar as costas e sumir no mapa? É que
tem pessoas que passam na vida da gente, fazem uma participação especial e
nunca mais voltam. Apagam seu rastro, simplesmente somem. O fato de
permanecerem inalcançáveis é que parece nos deixar com mais saudade ainda. E
saudade só é boa quando acaba. E eu não quero sentir saudade de ti.
Texto extraído do blog Casal sem Vergonha (@ksalsemvergonha)
e escrito por Laís Montagnana (@lmontag).
Para fins de direito de imagem, as fotos usadas no post não
são de minha autoria e os autores não foram identificados.

Gente esse texto é muito lindo... Chorei quando o li pela primeira vez e não tive como não "reblogar".
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