Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega - aqueles
da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível
nela. Cabelo mal pintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo.
Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar,
encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na
esquerda um copo de cerveja.
E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na
frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as
lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada
no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar - exposta, imoral,
escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não
via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio
cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também,
não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não
estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um
mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente
cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da
vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas,
uma música de Caetano, uma caixa de figos.
Quem consola aquela prostituta?

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